Uma resenha de George Patiño sobre o livro “Como se nadasse acima da última nuvem”, de Glauce Menfran.

Há de se saudar o universo e todas as tramas paralelas “coincidentes” quando um livro sagaz tal qual “Como se nadasse acima da última nuvem” [editora 7Letras], o terceiro da defensora pública, professora de Direito Constitucional e poeta Glauce Mendes Franco [Glauce Menfran], nos chega às mãos. O livro apresenta quase 70 poemas, a grande maioria construída em uma poesia e narrativa livre. No entanto, Glauce maneja a forma com precisão: ela estabelece o verso livre como solo firme, mas permite-se uma subversão lírica da rima e do ritmo por conta das necessárias concessões do amor. Em apenas três poemas, dedicados ao seu companheiro, a técnica curva-se à urgência do sentimento e utiliza artifícios de cadência clássica:
“(…) Quando o viu se aproximando, um jeito charmoso de andar balançando, aquele passo do elefantinho, como se, em meio ao pontilhado piscante, trabalho e pesquisa de toda uma existência, uma supernova brilhante”.
Os poemas alternam entre a primeira pessoa confessional e o distanciamento da terceira pessoa, revelando uma tensão fértil entre o rigor do Direito e a fluidez da escrita. As histórias-poemas ali presentes foram gestadas enquanto Glauce atuava como defensora pública [de 1981 até os dias de hoje] em várias comarcas no Rio, interior e no STF. Glauce não separa a toga da lira; sua escrita é atravessada pelo testemunho ocular do cotidiano jurídico, transformando as sucessivas vidas pequenas na esquina em matéria-prima de uma sensibilidade crua:
“Como foi? Ela se sentou e chorou. E então? Segurei sua mão, ofereci água, café, ela tensa, ferida, hesitante”.
Para além de retratar seu cotidiano profissional e a complexidade de ser mãe de seis – isso, seis! – filhos, Glauce brinda os leitores com uma obra densa em intertextualidade. Há referências à cultura pop e erudita, trechos em vários idiomas e diálogos constantes com personalidades literárias. A começar pelo título: tomado de um verso do poeta alemão Stefan George (1868 – 1933), ele sugere o distanciamento necessário ao artista que observa o mundo de um ponto onde os outros não chegam, carregando consigo o ônus da solidão.
Ao mesmo tempo, essa solidão se dissolve – será? – no concerto em homenagem a outro George, o Harrison: o Concert for George (Londres, 2002), com Eric Clapton, Paul McCartney e Ringo Starr, serve de mote para reafirmar a conexão da autora com o mundo. Por fim, ao citar que “the moon is in the seventh house and Jupiter aligns with Mars”, o livro se firma não apenas como exercício literário, mas como um manifesto de esperança ativa. É preciso acreditar que existindo, tendo coragem e com cada qual fazendo sua parte, a arte pode ser, sim, ferramenta de transformação. Assim será. Salve a Era de Aquário!

George Patiño é jornalista.

A colagem que acompanha o texto é de autoria da artista Laureline Delahousse.
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Publicado por:Philos

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